sábado, 2 de agosto de 2014

Homenagem do CAU/BR aos Arquitetos Lelé e Miguel Pereira

Brasília, 10º Plenária Ampliada do CAU/BR, em 18 de julho de 2014.
Cons. Paulo Ormindo de Azevedo


Estamos aqui não para chorar a perda, senão para homenagear os colegas e amigos João da Gama Figueiras Lima, o Lelé, e Miguel Alves Pereira, ou simplesmente Miguel Pereira, e comemorar seus feitos. Comemorar significa lembrar, evocar e festejar e é para isto que estamos aqui reunidos. Duas vidas longas, plenas pessoal e profissionalmente, amados que foram por seus parentes, admirados por seus colegas e amigos e respeitados por seus concidadãos e desafetos. Ambos trabalharam com paixão até à véspera de seu “encantamento”, como diria Graciliano Ramos. Miguel Pereira repetindo Noel não queria choro nem vela, apenas uma fita amarela gravada com o nome dela: “Arquitetura”. Lelé no hospital que ajudou a criar compartindo sua dor com a de acidentados na cidade que ele tentou humanizar. Imagino a comissão de frente da confraria dos arquitetos do andar de cima, o pós-CAU/BR, se acotovelando para receber seus dois novos membros. 

Apesar de este ser um conselho profissional, não vou rever aqui seus acervos técnicos. Isto está no Siccau, nos livros e nos Currículos Lattes. Vou relembrar apenas seus carismas marcantes e trajetórias pessoais e tentar mostrar suas semelhanças e alteridades. Ambos nasceram em 1932, um no Rio de Janeiro o outro em Alegrete no extremo sul, más, coincidentemente, fizeram a mesma profissão e morreram neste mesmo ano de 2014. Ambos eram ateus e do mesmo partido, o PCB, não obstante uma alta espiritualidade, como se nota na igreja da Ascensão do Senhor de Lelé e no titulo do ultimo livro de Miguel, “Arquitetando a Esperança”.

Um era um carioca da gema, da Central do Brasil, musico e boêmio, embora a vida o tenha levado para Brasília e Salvador. O outro um gaucho quase portenho que foi exportado para a UnB em Brasília e depois de um doutorado na Inglaterra importado pela USP de São Paulo. Enquanto o primeiro batucava sambas no piano, violão e acordeom, o segundo tocava os vinis jazzísticos de Charlie Parker, Coleman Hawkin e John Coltrane. Um curtia a caipirinha, o outro era um enólogo refinado, ambos amantes do bom garfo, um da carne, o outro dos vegetais. Lelé afável e despreocupado com o traje, Miguel elegante no tratar e no vestir com seus slacks e coletes de talho.

Lelé começou a trabalhar nos canteiros de obras de Brasília levado por Nauro Esteves e Oscar Niemeyer de quem herdou a facilidade do traço. Miguel começa a trabalhar no escritório privado e a partir de 1961 como professor assistente da Faculdade de Arquitetura da UFRS. Desta, e em especial do Prof. Demetrio Ribeiro, herdou a eloquência do discurso político. Quantas vezes neste plenário acompanhamos suas falas inflamadas e irônicas, que parecia não ter fim? 

Curiosamente o golpe militar iria cruzar suas vidas. Lelé deixando a Faculdade de Arquitetura da UNB em 1965, conjuntamente com 200 professores e servidores, em protesto pelo arbítrio, para fazer o hospital de Taguatinga por oferta de Oscar Niemeyer. O outro trazido em 1968 pelos ex-alunos do curso de arquitetura daquela universidade para reabrir a faculdade. Miguel aqui ficou por oito anos como seu diretor. Lelé se especializou nos canteiros de pré-fabricação da União Soviética, da Tchecoslováquia e da Polônia com uma bolsa conseguida por Darcy Ribeiro, Miguel em Berkley, na Califirnia. A ditadura ceifaria a carreira de professor de Lelé e incentivaria, ironicamente, a de Miguel.

Aquele acontecimento faria com que Lelé se transferisse para Salvador, em 1973, aceitando convite do Secretario Estadual de Planejamento da Bahia, Mario Kertész, no governo de Antonio Carlos Magalhães, para ajudar a construir o Centro Administrativo da Bahia com obras como a igreja da Ascensão do Senhor e as sedes de secretarias de estado gingando como cobras as curvas de nível. Projeta e constrói ainda importantes equipamentos comunitários, como o Terminal de Ônibus da Lapa e a igreja dos Alagados (1979).

Com o sucesso da construção do Hospital de Taguatinga, Lelé é chamado de volta à Brasília para construir o Hospital do Aparelho Locomotor Sarah Kubitscheck, em 1980, quando faz amizade com seu diretor, o Dr. Aloysio Campos da Paz. Amizade que viabilizaria a criação de uma rede nacional hospitalar e mais tarde o Centro Tecnológico da Rede Sarah, CTRS, por ele dirigida. No ano seguinte, ele constrói o Sarah de Salvador, com inovador sistema de ventilação responsável por um dos mais baixos índices nacionais de infecção hospitalar.

Em 1984, aceitando o convite de um frei, constrói com escassos recursos econômicos e técnicos a Fabrica de Abadiana, para edificação de escolas e pontilhões. É ali que ele começa a desenvolver a tecnologia da pré-fabricação leve com argamassa armada. No segundo mandato do Prefeito Mario Kertesz, 1985-1989, cria a Fabrica de Equipamentos Comunitários de Salvador, FAEC, onde aperfeiçoa a tecnologia da argamassa armada aplicada a escolas, abrigos, bancos, escadas-drenantes, lixódutos e passarelas cobertas que seriam reproduzidas em todo o país. Monta em 15 dias o Palácio Tomé de Souza, do Executivo Municipal, no centro de Salvador e recupera com Lina Bardi casas antigas no Pelourinho.

Com a redemocratização, Lelé é levado por Darcy Ribeiro para o Rio de Janeiro do governador Leonel Brizola para fazer com Oscar Niemeyer os CIEPS. Na Fábrica de Escolas são produzidos componentes leves que podiam ser levados no ombro pelas escadarias para a construção de escolas-classes no auto dos morros, onde não chegavam os caminhões. As escolas-parques do sistema concebido por Anísio Teixeira, projetadas por Oscar Niemeyer, acabariam eclipsando as escolas-classes de Lelé, por sua maior visibilidade na parte baixa da cidade. 

Nos anos 90, ainda com a mediação de Darcy, realiza a rede nacional dos Centros Integrados de Ensino, ou CIACs, durante o governo Collor de Mello. Com o apoio do CTRS fundado em 1991 em Salvador constrói os Hospitais Sarah de Fortaleza (1991), Belo Horizonte (1993) e Lago Norte em Brasília (1995), sedes de Tribunais de Contas da União em oito estado, da Fundação Darcy Ribeiro em Brasília (1996) e o Tribunal Regional Eleitoral, em Salvador, em 1997, demonstrando uma enorme capacidade gerencial e empreendedora. Em todas estas obras painéis de Athos Bulcão, seu amigo.

Depois de ter oito de suas sedes construídas pelo CTRS, o Tribunal de Contas da União descobre que um centro tecnológico dependente de uma rede hospitalar não podia construir edifícios para outras instituições. Mesmo sem o CTRS, Lelé constrói ainda o Sarah do Rio de Janeiro. Diante desta nova situação, Lelé com ajuda de Haroldo Pinheiro, parceiro em muitas obras, se volta para um sonho da década de 1970, o Instituto Habitat, de produção industrial e formação de arquitetos em pré-fabricação. Mas a doença e a política já não o permite avançar muito. 

Lelé reconcilia em sua obra a milenar tradição dos arquitetos da antiguidade e medievais de conceber e construir, tornando-se um arquiconstrutor. Sua intensa atividade nas fabricas e nos canteiros de obras lhe impediu de escrever tudo que tinha a dizer. Mesmo assim a maioria dos livros sobre a sua obra resultaram de longas entrevistas e material gráfico elaborado por ele. Um dos seus poucos livros-solo, “Arquitetura: uma experiência na área de saúde” ganhou o premio Jaboti em 2013. 

Voltando a Miguel, depois da direção da Faculdade de Arquitetura da UnB, ele assume a coordenação da Comissão de Formação Profissional da UIA (1971-1977), a presidência nacional do IAB, entre 1972 e 76, e a coordenação do CEAU junto ao Ministério da Educação, de 1973 a 1977. Nos três anos seguintes iria fazer especializações na Rice University, do Texas, e University of Califórnia, retornando em 1980. Entre 1987 e 1993 ele se reveza entre o Brasil e a Inglaterra fazendo uma especialização na Architectural Association of London e doutoramento na University of Sheffield. Contemporaneamente volta à presidência nacional do IAB, entre 1989 e 1991. 

Durante a estadia na Inglaterra, Miguel é eleito Membro do Conselho Superior da UIA e no período 1999-2002 seu Vice-Presidente. Com o clima de abertura política retorna ao Brasil e é requisitado pela Faculdade de Arquitetura da USP em 1981 onde permanece até a morte como professor associado. Neste período, além de atividade profissional como arquiteto, organizou a primeira Bienal Internacional de Arquitetura e foi eleito membro do Conselho da Fundação Bienal de São Paulo. Miguel publicou oito livros, entre 1977 e 2014, sobre a arquitetura contemporânea brasileira, ensino de arquitetura e participação na UIA. Encerrou sua atuação gremial, entre 2012 e 2014, como conselheiro do CAU/BR que ajudou a criar. 

A atividade acadêmica e de representação profissional não deixou muito tempo para Miguel se dedicar à prancheta, contudo teve escritório próprio entre 1959 e 1970 no qual realizou projetos de varias residências que balizam sua evolução profissional. Mais importante foi a sua participação, entre 1962 e 1970, no grupo de trabalho para projeto da Refinaria Alberto Pasqualini, em Canoas, RGS, um parque industrial de 140.000 m², em parceria com Carlos Fayet, Moacyr Marques e Claudio Araujo. Em 1970, projetou a Biblioteca Central da UnB em companhia dos colegas José Galbinski, Jodete Sócrates e Walmir Aguiar . 

Ganhou alguns concursos de arquitetura em parceria com outros colegas, como o do Museu Monumento a Pedro de Toledo, S. Paulo 1961, e do Instituto Concórdia em São Leopoldo, não construídos. Ganhou ainda os terceiros lugares nos concursos de projetos do Departamento Federal de Segurança Publica de Brasília, 1967, e da Sede da Petrobrás no Rio de Janeiro, em 1968 e o quarto lugar no concurso para a Biblioteca Central da Bahia (1968). Entre 1976 e 1977 foi chefe de projetos dos escritórios de Nestor Goulart Reis Fº e Joaquim Guedes. Em 1999 se associa a Gilberto Belleza e Maria Clara Batalha em escritório próprio onde permaneceu até a morte. 

A obra de Miguel Pereira segue uma linha modernista clássica em concreto armado com forte influencia de Mies van der Rohe e de Oswaldo Bratke. A de Lelé concilia a tradição barroca e oscariana com a industrial, com o uso de técnicas diversas, a começar pelo tijolo, como na igreja dos Alagados, passado pelo concreto e argamassa armada, o aço e os plásticos. Sua preocupação ecológica o leva a usar princípios da física, como a convecção e o efeito Venturi para proporcionar conforto ambiental sem uso da energia. Utiliza pioneiramente no mundo a mecatrônica para regular automaticamente brise-soleils e abrir e fechar claraboias, como no auditório do Sarah do Rio de Janeiro.

Ambos tiveram a mesma preocupação social. Miguel pretendia mudar a realidade social através da formação de agentes qualificados, arquitetos e urbanistas, na transformação do espaço urbano. Lelé buscava oferecer a administradores públicos e à comunidade soluções técnicas alternativas que pudessem facilitar as transformações urbanas e sociais ao criar uma pré-fabricação menos massificada, mais humanizada e bela.

Os dois tiveram sua obra reconhecida em vida. Lelé ganhou duas vezes o Premio Bienal Internacional de Arquitetura, em 1998 e 2002, titulo de doutor honoris causa da UFBa em 2003, Grande Premio Latino Americano na 9ª Bienal Internacional de Arquitetura, em 2001 e Medalha de Ouro da Federação Pan Americana de Associações de Arquitetos, FPAA, em 2012.

Miguel, por seu turno, foi membro honorário dos Colégios de Arquitetos do México e do Peru, da Sociedade Central de Arquitetos da Argentina, e da União de Arquitetos da Rússia. Recebeu as medalhas de Ouro do IAB e do Mérito do Confea, além do titulo de “Professor” da International Academy of Architecture of America. IAA. 

Quando colegas como Lelé e Miguel morrem podemos dizer o mesmo que Ernest Hemingway disse da morte do jovem Robert Jordan, das Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola: “quando morre um homem morremos todos, pois somos parte do mesmo gênero humano. Por isso não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti”.

domingo, 20 de julho de 2014

A Copa das surpresas e do despertar

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA, A Tarde de 20/07/14

Um dos ingredientes mais importantes num espetáculo é a surpresa. Neste sentido Copa da FIFA de 2014 foi um sucesso, mas não só por isso. Ninguém poderia imaginar que as seleções da Espanha, Itália e Inglaterra não passariam das eliminatórias, e que o anfitrião pentacampeão tomasse tamanha goleada. Surpresas também positivas, como a Copa transcorreu tranquila, contra todos os prognósticos da mídia, sem violência, arrastões e protestos, inclusive como os que ocorrem durante os World Economic Foruns. 


Comportamento exemplar do publico, inclusive nas derrotas, como dizendo roupa suja se lava em casa, mas tem que ser lavada. Nosso governo que foi desrespeitado e se submeteu a todas as exigências absurda da FIFA, mudando leis, abrindo mão do aluguel das arenas e impostos, tomou coragem não abafando os indícios de corrupção de um diretor da Match ligada à FIFA. 



Surpresa também que países pequenos como a Costa Rica, Bélgica e Holanda chegassem às quartas de finais e perdessem só nos pênaltis. Todos países de grande tradição democrática, que não permitem o desvirtuamento do esporte e transformação dos jogadores em mercadoria de exportação. A Alemanha venceu porque planeja e leva o esporte a serio, com uma seleção domestica, sem prima-donas e gestão técnica. Nossa seleção titular só tinha um jogador de casa, Fred, e teve três técnicos em quatro anos, manipulada pela nebulosa CBF.



Precisamos voltar a ser o país do futebol. Hoje o público nos nossos estádios é menor que o da Austrália e dos EE UU, e com a “gentrificação” das arenas tende a diminuir. As ruas estavam vazias com o povão em casa assistindo aos jogos nas telas grandes de TV. O Fest fan, com telão e shows, era dos turistas e da “elite”. Precisamos fortalecer os times locais e legalizar e equipar nossos campos de várzea e de peladas, que podem tirar nossos jovens da droga. Dos 20.000 jogadores brasileiros, 80% ganham menos de dois salários mínimos, devido a ação da CBF e da mídia televisiva que transformou o futebol do Sul Maravilha em espetáculo de TV de após novela. 



Mas o futebol tem uma função social maior, como dizia Thales de Azevedo em 1973 no artigo “Futebol como objeto de estudo” publicado neste jornal. Ele já exaltava a função educativa do futebol, e o papel da crônica esportiva incentivando o raciocínio critico sobre “as técnicas e estratégias desenvolvidas pelos treinadores, as hierarquias profissionais e sociais nas equipes, as combinações de jogadores no campo, as características de cada membro dos times...”. Outro antropólogo, Roberto da Matta, afirma que o futebol brasileiro reflete a nossa sociedade e vice versa. Foi o que se viu nessa copa.



A TV Globo depois de uma campanha ufanista vazia descobre que o rei está nu e seus repórteres passam a acusar o técnico e os jogadores. Como disse Romário, a culpa não é deles, senão dos cartolas, “um bando de ladrões, corruptos e quadrilheiros”. Campeões mundiais como Pelé e Romário que vêm denunciando o cartel FIFA/CBF/TV foram defenestrados da Copa. Precisamos restaurar o Clube dos 13, ouvir o movimento Bom Senso Futebol Clube e atualizar a Lei Pelé para resgatar o nosso futebol. Que esta derrota, como a de 50, deflagre uma nova era do futebol no país. 

sábado, 5 de julho de 2014

Decifra-me ou te devoro

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde de 06/07/14.

As grandes manifestações de rua do ano passado, que replicam até hoje, é um enigma semelhante ao da esfinge de Tebas. Ninguém até agora conseguiu decifra-lo. Será que foi por acaso que a multidão tentou invadir o Congresso, o Itamaraty, palácios estaduais e municipais, quebrar agencias de bancos e lojas de carros de luxo e queimar centenas de ônibus em todo o país? 

Quem era e o que queriam aqueles “vândalos”, que segundo as autoridades e mídia não faziam parte do admirável gado novo apascentado, ninguém sabe por quem, pelas avenidas de todas as capitais do país? Estranho que isto ocorra quando 34 milhões saíram da pobreza, o emprego está em alta e a classe media surfa no consumo. As antenas do poeta Arnaldo Antunes já haviam captado esta insatisfação em 1987: “Comida é pasto. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade”. 

Dizer que as manifestações foram apenas contra a Copa e orquestradas pela mesma elite que vaiou a presidente no Itaquerão é querer tapar o sol com a mão. Ainda não existe uma explicação para o fato, mas uma das melhores abordagens da questão foi feita pelo sociólogo e professor da PUC-Rio Luiz Werneck Vianna em entrevista na Revista de Historia da Biblioteca Nacional, do mês de junho, nº 105. Luiz Werneck é um intelectual de esquerda, que não faz parte da elite nem da mídia conservadora.

Werneck afirma que o economicismo tradicionalmente usado para explicar acontecimentos sociais não decifra esses novos fenômenos. “Ficou claro que há uma distancia imensa entre o estado e a sociedade, apesar da existência de todos esses aparelhos... para dar conta de questões especificas, como gênero, juventude”. Conflito que é dramático nas UPPs do Rio e de S. Paulo. “Há um verdadeiro levante popular que não se encontra com nenhuma mediação institucional: partidos, sindicatos, associações. Uma energia muito forte que não é canalizada para um fim determinado” (p.50), afirma ele. 

Werneck admite que o movimento estivesse originalmente ligado a uma classe média emergente e até a setores tradicionais: “O Movimento Passe Livre, por exemplo, nasceu na USP com estudantes de origem financeira mais alta. Mas o fato é que isto galvanizou a imaginação dos jovens que se fizeram presentes. E a questão toda gira em torno de por que eles não encontraram canais visíveis e já estabelecidos para onde essas demandas pudessem desembocar” (p. 50). 

Sobre esta falta de comunicação comenta: “Vencidas as eleições, o PT negligenciou sua própria identidade. Deixou de ser um partido da sociedade civil, mobilizador, e passou a viver como um partido de Estado, com políticas de Estado para seres subalternos selecionados, hiperburocratizado, perdeu capacidade de organização, deixou de exercer papel pedagógico, de ensinar às pessoas o que está passando, o que se pode fazer”(p.52). Os demais partidos também perderam a identidade. “O que se está disputando (agora) nem é um projeto de sociedade ou país. Trata-se de quem irá administrar, no dia a dia, essa cinzenta ordem burguesa no país” (p.53). Esta reflexão é importante para reaproximarmos o estado da sociedade. 

domingo, 22 de junho de 2014

Barrados no baile

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 22/06/14

Tem razão o establishment quando afirma que as manifestações conta a Copa é um movimento de classe media e que as agressões grotescas e pueris à presidente não vieram do povão, que não tinha dinheiro para entrar no Itaquerão. Mas o argumento é incongruente, pois admite que as arenas não foram concebidas para o povo, senão para a classe media alta e globalizada. 

O povão não participa da Copa e a assiste em casa pela TV, como se ela fosse um campeonato em outro continente. Há muito poucos torcedores nas ruas e bares da periferia ou em volta das arenas. Populares ouvidos pela mídia dizem que esta é uma copa dos “brancos” e dos gringos. Este que era um esporte abrilhantado por negros e mestiços. Traço que já havia sido assinalado por Gilberto Freyre em artigo de 1938 com o titulo Football mulato e no primeiro livro sobre o tema, O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho publicado em 1947.

Como eu previa em artigo de 16/3/14, em Salvador a Copa teria muito menos impacto que o carnaval. A ocupação hoteleira é de 70% e Salvador é o sexto destino turístico entre as sedes da Copa graças à falta de planejamento. A BR 324 está engasgada com obras em sete pontilhões, o metrô nanico é exclusivo para os portadores de ingresso da Copa, não se pode caminhar no Porto da Barra, ponto emblemático da cidade, de tão esburacado que está e as ruas vizinhas e o estacionamento da Fonte Nova foram interditados. Não está disponível nenhum guia ou mapa da cidade, nenhuma sinalização ou indicação da boa culinária baiana, galerias de arte, shows e rodas de capoeira. 

Em 2007 o Brasil crescia e Lula queria comemorar os dez anos do PT no poder e os 30 milhões de brasileiros que deixaram a pobreza absoluta. Mas nestes sete anos a economia minguou, o custo das arenas foi triplicado sem nenhum legado urbano e os que passaram a ter pão se juntaram à classe media rebaixada e insatisfeita com a mobilidade urbana, a saúde e a educação. Este quadro contrasta com os R$ 35 bilhões superfaturados, que ultrapassam as três ultimas Copas juntas. Enquanto na África do Sul um assento numa arena custou US$1,500, na Alemanha US$2,530, no Brasil chegou a US$5,500. O público se sente traído por pagar o baile e ser barrado na entrada. Perdemos a Copa fora das arenas e a Seleção sua para vencer dentro delas. 

A FIFA se transformou num cartel em que os países sedes dos jogos arcam com vultosas despesas e ela, isenta de impostos, fica com todo o lucro, estimado em R$15 bilhões, de fornecedores, merchandise, transições de TV e bilheterias. Seus diretores são vitalícios e não se conhece nenhuma obra educativa ou social da FIFA. Para onde vai todo este dinheiro na Suíça? O modelo de copa da FIFA é absurdo e caduco, contrariando todos os princípios do bom senso e da ecologia: insustentável, excludente, negador da cultura local, uni supridor de alimentos e bebidas e não reciclador de estádios. 

A Seleção não é mais a pátria de chuteiras de 1970 em que o futebol era o ópio do povo nos anos de maior repressão. Avançamos muito politicamente ao contestar a prioridade do circo. É bom lembrar que movimentos revolucionários sempre foram deflagrados pela classe média inflamando multidões. Vide Rússia, China e Cuba.

domingo, 8 de junho de 2014

Um gosto amargo de perda

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde de 08/06/14

As comemorações dos 100 anos de nascimento de Diógenes Rebouças com a exposição de 80 telas dele no Museu de Arte do Estado e 70 anos do inicio dos trabalhos do Escritório do Plano Urbanístico da Cidade do Salvador com a publicação do livro “Acervo do EPUCS, contextos, percursos, acessos” coordenado pela Profa. Ana Fernandes não têm nada de pitoresco ou saudosista, senão de protesto e denuncia.

Protesto do próprio Diógenes que abandona a profissão aos 50 anos ao ver os rumos que a cidade tomava com a liberação do uso do solo e a pratica da “arquitetura do m²” feita pelos corretores. Prevendo o urbanicídio de Salvador ele procura resgatar em acrílico a cidade que ainda alcançou e que começava a ser destruída. Durante dez anos ele reconstruiu 70 cenas de Salvador que seriam publicadas em 1977 no livro “Salvador da Bahia de Todos os Santos no século XIX” com notas de Godofredo Filho editado pela Odebrecht.

A exposição e seminários organizados pela Faculdade de Arquitetura da UFBA e IAB-Ba são uma mostra da cidade que perdemos e o livro sobre o EPUCS da regressão urbanística que sofremos. Cidades que foram destruídas na ultima guerra foram reconstruídas para restaurar a autoestima de seus habitantes. Nós fizemos a trajetória inversa, destruímos a cidade para criarmos a guerra da segregação sócio-espacial, da violência e da imobilidade urbana. Não podemos voltar à cidade perdida, mas podemos parar a barbárie e construir uma cidade mais humana, que não seja apenas mercadoria.

O livro sobre o EPUCS é uma demonstração da seriedade e criatividade de um plano feito em condições adversas de uma prefeitura falida e uma cidade estagnada, mas com o norte no futuro. É também uma denuncia do pouco apreço de nossos alcaides pelo planejamento. Dez anos de trabalho foram necessários para salvar fragmentos de mapas, plantas, maquetes e textos feitos por uma equipe dedicada sob uma das administrações mais desastrosas dessa cidade, que por não ter controle de nada não se deu conta que a revelação daquele acervo colocaria como antagônicos o EPUCS e sua administração.

O livro não chega a analisar o enorme volume de informações contidas nos documentos elaborados por uma equipe multidisciplinar de urbanistas, arquitetos, cartógrafos, topógrafos, sociólogos, demógrafos, médicos e botânicos. Era preciso primeiro resgatar as fontes para que outros pesquisadores possam mergulhar na sua analise. Mas o livro põe em cheque os processos arbitrários de decisão pública e cria um referencial que se não for seguido no novo PDDU e Lous os condena a ter o mesmo fim dos anteriores rejeitados pela população e anulados pela Justiça.

O EPUCS foi uma das experiências mais avançada de urbanismo de seu tempo, quando no Brasil ele ainda era praticado apenas por engenheiros sanitaristas. A equipe sem descuidar dessas questões centrou seu trabalho nos questões sociais e ambientais de Salvador. Infelizmente os estudos foram paralisados com a morte de seu idealizador, Mario Leal Ferreira. O plano seria macaqueado vinte anos depois, quando a cidade já havia dobrado de população e seu centro mudado para o Iguatemi. As telas de Diógenes e o livro do EPUCS são apenas registros, mas nos deixam um amargo no olhar.

domingo, 25 de maio de 2014

Você já foi ao Ceará? Não? Então vá!

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 25/5/2014

Nenhum estado brasileiro foi mais deserdado pela natureza do que o Ceará. Cerca 93% de seu território está no Polígono das Secas. Raquel de Queiroz fez seu “debut” na literatura com o romance “O quinze” em que conta o horror da seca de 1915. Hoje aquele estado é um dos mais desenvolvidos do Nordeste com uma enorme classe media que enche os restaurantes e as lojas durante toda a semana. Fortaleza é o município com maior PIB do Nordeste e o Ceará o estado com a melhor qualidade de vida do Norte e Nordeste. Pude comprovar isto há algumas semanas quando fiz ali uma palestra no XX Congresso Brasileiro de Arquitetos.

Em grande parte isto se deve ao trabalho desenvolvido ao longo de 105 anos pelo DNOCS. Hoje o estado tem 144 açudes para irrigação e abastecimento urbano e só os trinta maiores tem capacidade de 19 bilhões de m³, mais da metade de todo o Nordeste. O maior deles, o Castanhão, tem 6 bilhôes m³ e o maior da Bahia, Cocorobó, construído para afogar Canudos, não passa de 245 milhões. A outra razão foi a opção pela pequena e media empresa, como confecções, sapatarias e lavouras de algodão e caju, que geram mais emprego que as grandes. O Mercado Central de Fortaleza é uma mostra da força dessa economia popular. Ao DNOCS se somou o Banco do Nordeste, que tem realizado uma serie de estudos e financiado prioritariamente o desenvolvimento daquele estado. 

Pernambuco, por seu lado, é sede da Fundação Joaquim Nabuco, da Sudene e da Chesf. Essas instituições são responsáveis pelo pensamento e financiamento de grandes projetos. Nossos políticos nunca conseguiram atrair para a Bahia nenhuma grande agencia federal e perdemos todos os bancos, públicos e privados, temos apenas uma repassadora de recursos federais. Os nossos governantes não gostam de planejamento, preferem o clientelismo fisiológico. Cada nova gestão, interrompe os projetos iniciados pela anterior e não consegue concluir os seus. A Comissão de Planejamento Econômico criada por Rômulo Almeida teve vida curta, não obstante os enormes serviços prestados ao estado, com a criação do CIA e Copec. 

Os portos da Bahia estão saturados e ultrapassados. Pecém, no Ceará, é o porto nacional mais próximo da Europa e dos Estados Unidos. Em sua retroárea está sendo construída uma siderúrgica e em breve deve ser iniciada uma refinaria. O aeroporto de Fortaleza é o portão mais rápido e barato de ingresso no país e o turismo vem crescendo a índices elevados. Um “pirata” português resolveu abrir sua boate no dia de descanso de outras casas noturnas, a segunda feira, e é um sucesso estrondoso. Aproveitando essa onda turística está sendo inaugurado um aeroporto internacional em Aracati, onde se encontra a famosa praia de Canoa Quebrada.

O PDDU da capital é desenvolvido pelo Instituto de Planejamento de Fortaleza em estreita colaboração com a academia e discussão com as entidades de arquitetos-urbanitas e engenheiros. Um dos seus pontos altos é o Plano de Mobilidade que prevê três linhas subterrâneas de metrô e uma de VRT, além de BRT e ciclovias, já em execução. Para se livrar do superfaturamento das empreiteiras o estado comprou um tatuzão (TBM) para abrir os tuneis. A preocupação com a mobilidade não se restringe à capital. Duas linhas de VLT estão sendo construídas em Sobral e ligando Juazeiro do Norte a Crato. Um detalhe, os vagões dos metrôs e VLTs são fabricados no estado, sobre chassis importados. Os nossos PDDUs são malas pretas. Outra inovação do estado foi a criação do sistema de agentes de saúde. Nem tudo é uma maravilha no Ceará, mas se discute, se briga, e se decide participativamente.

Estas observações, com grande recorte temporal, não são uma critica a nenhuma administração em especial, senão uma reflexão sobre as diferentes governanças dos estados. O exemplo do Ceará visa servir de estimulo e contribuição aos planos de governo e prioridades de ações que estão sendo elaborados pelos candidatos ao futuro governo. É fundamental criarmos um centro de planejamento e formação de lideres e quadros públicos para levantarmos a Bahia de seu berço esplêndido.

domingo, 11 de maio de 2014

Perguntas frequentes

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 11/5/2014


O manual do usuário de qualquer produto novo apresenta três seções: para que serve o produto? como funciona? e perguntas frequentes. Na falta das duas primeiras, me antecipo respondendo algumas perguntas frequentes. A ponte Salvador/Itaparica que parecia morta foi relançada com o anuncio do governador de licitá-la antes de deixar o governo e novas contratações de pareceres e projetos para justificar uma decisão tomada em reunião social sem qualquer estudo prévio.

1º - A ponte faz parte do sistema viário de onde? Uma ligação rodoviária não pode competir com uma ferrovia como a Fiol na exportação de minérios e grãos do oeste, mesmo porque o porto de Salvador não opera graneis. Não serve também ao litoral sul, quando está sendo construído o Porto Sul e um novo aeroporto em Ilhéus. Atrações como Itacaré e Barra Grande são mais acessíveis por Ilhéus.

2º - A ponte substituirá a hidrovia? – Os moradores de Niterói sabem que é melhor pegar a barca e saltar no centro do Rio que enfrentar filas, engarrafamentos e pedágio e não poder estacionar no Rio. Os ferries vão continuar transformados em barcas de passageiros.

3º - A ponte será um escape ou ladrão para Salvador? Quem atrai mais: Salvador ou Nazaré? A ponte irá apenas congestionar Salvador e a Estrada do Côco trazendo os veículos da BR-101 e BR-116 para o litoral norte onde estão o aeroporto, praias, Copec, Ford e acesso ao Nordeste. Quem perde com isso é S. Antonio de Jesus, Salvador e Feira de Santana. A ponte irá ainda duplicar a RMS aumentando sua função de dormitório e prestador de serviços de educação, saúde, abastecimento e lazer para trabalhadores que enriquecem outros municípios. A solução tem que ser ferroviária, pois a ponte será tão engarrafada quanto a Paralela.

4º - Itaparica será uma expansão de Salvador? A classe média quer centralidade, ficar junto do emprego, dos colégios e universidades, dos hospitais, do teatro e dos cinemas. Também não tem lógica criar conjuntos habitacionais para operários que irão trabalhar em Candeias, Simões Filho e Camaçari, sujeitos a esperar horas para a passagem de plataformas de petróleo e guindastes. A Ilha será apenas um acampamento rodoviário como São Gonçalo junto a Niterói.

5º - A ponte beneficiará a RMS e o Recôncavo? Saltando de Salvador para Jaguaripe a ponte irá marginalizar ainda mais o Recôncavo com seu enorme potencial turístico e náutico. A baía também perde com um gargalo na sua boca dificultando o acesso a seus quatro portos internos: Aratu, Temadre, Regaseificação e Estaleiros de S. Roque.

6º - Qual a importância econômica da ponte? Se não serve ao oeste. ao sul ou a RMS o que ganha o estado com esta ponte rodo-eleitoral? Não sabemos responder. Mas “Pergunte ao José”, saudoso programa radiofônico baiano.

7º - Quanto pagaremos pela ponte? Todos sabem que uma ponte não se paga pelo pedágio. A solução apontada de leilões de CEPACs não está funcionando nem no Porto Maravilha, no centro do Rio. Sem esquema financeiro assegurado, ela será iniciada e parada e as empreiteiras irão receber durante anos por terem seu contrato suspenso como aconteceu com o metrô perna-de-pau de Salvador. Mesmo que a União banque uma parte, teremos que pagar uma divida monstruosa, o equivalente a quatro superportos tipo Mariel em Cuba, ou três refinarias de Pasadena, ou ainda as doze arenas da Copa, enquanto o sertanejo, a lavoura e o gado morrem de sede no semiárido. 

8º Não haveria uma alternativa mais interessante? Sim, seria a construção da Envolvente Rodo-Ferroviária de Kerimorê ou BTS, ligada ao novo porto de Salinas da Margarida, projeto que custaria um terço da ponte e teria efeitos socioeconômicos e culturais muito maiores. Ela alavancaria o desenvolvimento do Estado e da RMS e integraria todo o Recôncavo com um trem rápido metropolitano fazendo a ligação Salvador-Feira com variante para São Roque/Itaparica. E ainda reduziria para um terço o acesso de carros para a ilha e criaria milhares de empregos perenes.

P.S. - Não confundir “Pergunte ao José” do mestre Cid Teixeira com “José”, poema de Carlos Drummond de Andrade.