domingo, 25 de maio de 2014

Você já foi ao Ceará? Não? Então vá!

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 25/5/2014

Nenhum estado brasileiro foi mais deserdado pela natureza do que o Ceará. Cerca 93% de seu território está no Polígono das Secas. Raquel de Queiroz fez seu “debut” na literatura com o romance “O quinze” em que conta o horror da seca de 1915. Hoje aquele estado é um dos mais desenvolvidos do Nordeste com uma enorme classe media que enche os restaurantes e as lojas durante toda a semana. Fortaleza é o município com maior PIB do Nordeste e o Ceará o estado com a melhor qualidade de vida do Norte e Nordeste. Pude comprovar isto há algumas semanas quando fiz ali uma palestra no XX Congresso Brasileiro de Arquitetos.

Em grande parte isto se deve ao trabalho desenvolvido ao longo de 105 anos pelo DNOCS. Hoje o estado tem 144 açudes para irrigação e abastecimento urbano e só os trinta maiores tem capacidade de 19 bilhões de m³, mais da metade de todo o Nordeste. O maior deles, o Castanhão, tem 6 bilhôes m³ e o maior da Bahia, Cocorobó, construído para afogar Canudos, não passa de 245 milhões. A outra razão foi a opção pela pequena e media empresa, como confecções, sapatarias e lavouras de algodão e caju, que geram mais emprego que as grandes. O Mercado Central de Fortaleza é uma mostra da força dessa economia popular. Ao DNOCS se somou o Banco do Nordeste, que tem realizado uma serie de estudos e financiado prioritariamente o desenvolvimento daquele estado. 

Pernambuco, por seu lado, é sede da Fundação Joaquim Nabuco, da Sudene e da Chesf. Essas instituições são responsáveis pelo pensamento e financiamento de grandes projetos. Nossos políticos nunca conseguiram atrair para a Bahia nenhuma grande agencia federal e perdemos todos os bancos, públicos e privados, temos apenas uma repassadora de recursos federais. Os nossos governantes não gostam de planejamento, preferem o clientelismo fisiológico. Cada nova gestão, interrompe os projetos iniciados pela anterior e não consegue concluir os seus. A Comissão de Planejamento Econômico criada por Rômulo Almeida teve vida curta, não obstante os enormes serviços prestados ao estado, com a criação do CIA e Copec. 

Os portos da Bahia estão saturados e ultrapassados. Pecém, no Ceará, é o porto nacional mais próximo da Europa e dos Estados Unidos. Em sua retroárea está sendo construída uma siderúrgica e em breve deve ser iniciada uma refinaria. O aeroporto de Fortaleza é o portão mais rápido e barato de ingresso no país e o turismo vem crescendo a índices elevados. Um “pirata” português resolveu abrir sua boate no dia de descanso de outras casas noturnas, a segunda feira, e é um sucesso estrondoso. Aproveitando essa onda turística está sendo inaugurado um aeroporto internacional em Aracati, onde se encontra a famosa praia de Canoa Quebrada.

O PDDU da capital é desenvolvido pelo Instituto de Planejamento de Fortaleza em estreita colaboração com a academia e discussão com as entidades de arquitetos-urbanitas e engenheiros. Um dos seus pontos altos é o Plano de Mobilidade que prevê três linhas subterrâneas de metrô e uma de VRT, além de BRT e ciclovias, já em execução. Para se livrar do superfaturamento das empreiteiras o estado comprou um tatuzão (TBM) para abrir os tuneis. A preocupação com a mobilidade não se restringe à capital. Duas linhas de VLT estão sendo construídas em Sobral e ligando Juazeiro do Norte a Crato. Um detalhe, os vagões dos metrôs e VLTs são fabricados no estado, sobre chassis importados. Os nossos PDDUs são malas pretas. Outra inovação do estado foi a criação do sistema de agentes de saúde. Nem tudo é uma maravilha no Ceará, mas se discute, se briga, e se decide participativamente.

Estas observações, com grande recorte temporal, não são uma critica a nenhuma administração em especial, senão uma reflexão sobre as diferentes governanças dos estados. O exemplo do Ceará visa servir de estimulo e contribuição aos planos de governo e prioridades de ações que estão sendo elaborados pelos candidatos ao futuro governo. É fundamental criarmos um centro de planejamento e formação de lideres e quadros públicos para levantarmos a Bahia de seu berço esplêndido.

domingo, 11 de maio de 2014

Perguntas frequentes

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 11/5/2014


O manual do usuário de qualquer produto novo apresenta três seções: para que serve o produto? como funciona? e perguntas frequentes. Na falta das duas primeiras, me antecipo respondendo algumas perguntas frequentes. A ponte Salvador/Itaparica que parecia morta foi relançada com o anuncio do governador de licitá-la antes de deixar o governo e novas contratações de pareceres e projetos para justificar uma decisão tomada em reunião social sem qualquer estudo prévio.

1º - A ponte faz parte do sistema viário de onde? Uma ligação rodoviária não pode competir com uma ferrovia como a Fiol na exportação de minérios e grãos do oeste, mesmo porque o porto de Salvador não opera graneis. Não serve também ao litoral sul, quando está sendo construído o Porto Sul e um novo aeroporto em Ilhéus. Atrações como Itacaré e Barra Grande são mais acessíveis por Ilhéus.

2º - A ponte substituirá a hidrovia? – Os moradores de Niterói sabem que é melhor pegar a barca e saltar no centro do Rio que enfrentar filas, engarrafamentos e pedágio e não poder estacionar no Rio. Os ferries vão continuar transformados em barcas de passageiros.

3º - A ponte será um escape ou ladrão para Salvador? Quem atrai mais: Salvador ou Nazaré? A ponte irá apenas congestionar Salvador e a Estrada do Côco trazendo os veículos da BR-101 e BR-116 para o litoral norte onde estão o aeroporto, praias, Copec, Ford e acesso ao Nordeste. Quem perde com isso é S. Antonio de Jesus, Salvador e Feira de Santana. A ponte irá ainda duplicar a RMS aumentando sua função de dormitório e prestador de serviços de educação, saúde, abastecimento e lazer para trabalhadores que enriquecem outros municípios. A solução tem que ser ferroviária, pois a ponte será tão engarrafada quanto a Paralela.

4º - Itaparica será uma expansão de Salvador? A classe média quer centralidade, ficar junto do emprego, dos colégios e universidades, dos hospitais, do teatro e dos cinemas. Também não tem lógica criar conjuntos habitacionais para operários que irão trabalhar em Candeias, Simões Filho e Camaçari, sujeitos a esperar horas para a passagem de plataformas de petróleo e guindastes. A Ilha será apenas um acampamento rodoviário como São Gonçalo junto a Niterói.

5º - A ponte beneficiará a RMS e o Recôncavo? Saltando de Salvador para Jaguaripe a ponte irá marginalizar ainda mais o Recôncavo com seu enorme potencial turístico e náutico. A baía também perde com um gargalo na sua boca dificultando o acesso a seus quatro portos internos: Aratu, Temadre, Regaseificação e Estaleiros de S. Roque.

6º - Qual a importância econômica da ponte? Se não serve ao oeste. ao sul ou a RMS o que ganha o estado com esta ponte rodo-eleitoral? Não sabemos responder. Mas “Pergunte ao José”, saudoso programa radiofônico baiano.

7º - Quanto pagaremos pela ponte? Todos sabem que uma ponte não se paga pelo pedágio. A solução apontada de leilões de CEPACs não está funcionando nem no Porto Maravilha, no centro do Rio. Sem esquema financeiro assegurado, ela será iniciada e parada e as empreiteiras irão receber durante anos por terem seu contrato suspenso como aconteceu com o metrô perna-de-pau de Salvador. Mesmo que a União banque uma parte, teremos que pagar uma divida monstruosa, o equivalente a quatro superportos tipo Mariel em Cuba, ou três refinarias de Pasadena, ou ainda as doze arenas da Copa, enquanto o sertanejo, a lavoura e o gado morrem de sede no semiárido. 

8º Não haveria uma alternativa mais interessante? Sim, seria a construção da Envolvente Rodo-Ferroviária de Kerimorê ou BTS, ligada ao novo porto de Salinas da Margarida, projeto que custaria um terço da ponte e teria efeitos socioeconômicos e culturais muito maiores. Ela alavancaria o desenvolvimento do Estado e da RMS e integraria todo o Recôncavo com um trem rápido metropolitano fazendo a ligação Salvador-Feira com variante para São Roque/Itaparica. E ainda reduziria para um terço o acesso de carros para a ilha e criaria milhares de empregos perenes.

P.S. - Não confundir “Pergunte ao José” do mestre Cid Teixeira com “José”, poema de Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 27 de abril de 2014

E o “guayacán” voltou a florir...


Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 27/04/1

Era uma vez uma cidade chamada Guayacán dominada por um barão perverso, sétimo homem mais rico do mundo e dono de 80 % do comercio mundial de sonhos e pesadelos. Grande parte de seus habitantes eram mulas, que transportavam sonhos pesados como chumbo. Sua lei era “plata o plomo” - dinheiro ou chumbo - e com isso ele controlava juízes, legisladores, governantes e cidadãos. Três candidatos a presidentes de seu país e milhares de mulas suspeitas e rivais foram mortos por ele. Em 1991 o número de homicídios por cem mil na cidade era de 381. Dois anos depois a cidade se revoltou e o matou, mas continuou dominada pelo barão de uma cidade vizinha. A partir de 2004 esta “Sin City” começou a mudar, quando o irmão do governador do estado, sequestrado e morto um ano antes, resolveu assumir a luta e mudar o estado e a cidade. O guayacán, o nosso ipê amarelo, voltou a colorir os tetos de zinco da grande favela.

Esta não é mais uma fabula cruel com final feliz, é uma historia real. Guayacán é o símbolo de Medelín, na Colômbia, e o barão era Pablo Escobar. Em 2007 a taxa de homicídios despencou para 34 e o índice de alfabetização subiu para 96,65%. Medelín conseguiu isto rompendo a segregação sócio-espacial com um inovador sistema de metrô, BRT, teleféricos e escadas rolantes, que chega aos pontos mais isolados da cidade. Ali foram instaladas bibliotecas-parques, escolas e museus de primeiro mundo, e não meias-solas, onde se faz a inclusão social.

Há três semanas, pessoas vindas de todos os cantos do mundo vieram conhecer o milagre de Medelín. O prefeito Aníbal Gaviria(48) e seu parceiro nesta luta, o governador da província de Antioquia Sergio Fajardo, se juntaram ao premio Nobel de economia Joseph Stiglitz, ao Dr. Joan Clós, diretor executivo do Habitat e ao ex-prefeito de Nova York, o bilionário Michael Blomberg para divulgarem para o mundo o que aconteceu na cidade, no VII Fórum Urbano Mundial, da ONU-Habitat. Uma dezena dos maiores profissionais e teóricos do urbanismo foi convidada a avaliar criticamente a experiência de Medelín.
Prefeitos, entre os quais a nossa vice, empresários, diretores de fundações e ongs, lideres sociais e tribais e técnicos, como este escriba representando o CAU/BR, discutiram o futuro das cidades em mesas redondas e diálogos. O tema central era Equidade Urbana no Desenvolvimento de Cidades para a Vida. Dentro deste marco foram discutidos os efeitos das mudanças climáticas; o processo acelerado de urbanização que transformou nossas cidades em favelões; a crescente segregação sócio-espacial com barreiras físicas e sociais, a mobilidade urbana e a inclusão social para combate à violência.

A escolha de Medellín não foi por acaso, a cidade acaba de ganhar o concurso City of the Year, organizado pelo The Wall Steet Journal, como a cidade mais criativa do mundo. Este milagre se deve a inclusão social realizada pelas empresas publicas Desarrollo Urbano e Transporte Masivo del Valle de Aburrá, da mais alta qualificação e eficiência voltadas para o social. O premio Nobel Stiglitz sintetizou a experiência: “O que me agrada em Medelín é que se está focando o conceito de dignidade, ao criar espaços atrativos e fazer as pessoas se sentirem bem. Não é apenas uma luta pela sobrevivência, é uma aposta no brilhantismo”.

O prefeito Gaviria é um administrador formado em Harvard. O governador Sergio Fajardo é professor universitário e ex-diretor do Centro de Ciência e Tecnologia de Antioquia. É uma pena que nossos secretários de planejamento estadual e municipal não estivessem presentes para se contaminar com Medelín como fizeram 20.000 administradores e técnicos de todo o mundo.

Apesar de sermos a 13ª cidade mais violenta do mundo, a experiência de Medelín nos renova a esperança. Mas para isto temos que apostar na reconstrução do setor público, no planejamento com foco no social, na inteligência e criatividade de nossos cidadãos. Não podemos continuar a licitar projetos apócrifos pelo menor preço. Temos que respeitar a dignidade do nosso povo.

domingo, 13 de abril de 2014

O culto brasileiro ao belo


 Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 13/04/14

A unidade verdadeiro-bom-belo foi formulada originalmente na Idade Média, mas se transformou num clássico. No século XIX, Victor Cousin em um livro de grande sucesso, que tem este titulo, afirmou que em todas as épocas estas foram as preocupações básicas da filosofia. Coube a Frederich Nietzsche, em 1886, mostrar o antagonismo destas três ideias. O culto brasileiro ao belo parece confirmar a observação de Nietzsche. Aqui o belo é um valor dissociado e até antagônico aos demais itens da tríade. Exemplo disto é a proliferação de lojas de decoração, academias de ginástica, spas, salões de beleza, clinicas de cirurgia plástica e ortodontia, que nada têm a ver com o bom e o verdadeiro.

A arquitetura colonial brasileira é mais barroca e bela que sua matriz portuguesa dita chã. Niemeyer dizia que sua obra reproduzia as curvas graciosas da paisagem carioca e da mulher brasileira. Nenhum profissional liberal ou butiqueira que se preze dispensa uma decoradora para dourar seu consultório ou loja com moveis de design não necessariamente cômodos. Este é um requisito fundamental para o sucesso profissional ou comercial, o que confirma que os seus clientes são também cultores do belo. Por isso, não obstante os preços exorbitantes de móveis, tapetes e objetos de design, as lojas do ramo se reproduzem como coelhos em cidades grandes, médias e até pequenas. Esta preocupação estética não se restringe aos espaços de trabalho ou morar, se estendendo ao próprio corpo, num narcisismo próprio dos brasileiros.


O segundo lugar da bela Marta Rocha no concurso de Miss Universo em 1954 provocou uma comoção no país quase igual à perda da Copa de 1950. Vinicius de Morais pedia desculpa às feias, mas dizia que beleza era fundamental.

O Dr. Keneth Cooper, autor do livro Aerobics (1968), treinador das forças armadas norte-americana e conselheiro da seleção brasileira na década de 1970, afirmava que em nenhum país seu método de fazer corpos sarados teve tantos aficionados como no Brasil, a ponto de seu nome ser sinônimo de jogging.


O Brasil é campeão mundial de cirurgias plásticas. Os nossos cirurgiões são considerados dos mais competentes do mundo, perdendo apenas para os colegas tailandeses em operações transexuais. Algumas mulheres fazem operações plásticas periódicas para diminuírem ou aumentarem os seis, o glúteo e colotes em função da moda. Uma brasileira residente nos Estados Unidos é a campeã mundial de seios siliconados, alguma coisa da ordem de quatro quilos, o que lhe salvou em um acidente de carro quando o air bag falhou. Modelos e atrizes se internam em spas durante semanas ou fazem lipoaspirações para uma simples apresentação ou sessão de fotos para revistas masculinas. Também os homens já aderiram a esta prática para mostrar o tórax malhado sem fazer esforço, ou eliminar barrigas hemisféricas, “pneus” e carecas.

Turistas estrangeiros se espantam com a quantidade de pessoas, inclusive de baixa renda, que usam aparelhos de ortodontia nas nossas cidades. Hoje simulacros desses aparelhos, coloridos para serem mais atrativos, são vendidos em tabuleiros de camelôs ao lado de sutiãs e ancas infláveis ou acolchoadas. Perto dali estão as tendas de tatuadores com álbuns de dragões orientais, aves do paraíso, corações flechados, abecedários artísticas e frases do “secretario amoroso” para serem tatuados em homens e mulheres apaixonados ou narcisista que querem atapetar todo corpo com desenhos coloridos.

O belo nesses casos não corresponde ao verdadeiro. Pelo contrario, uma mulher ou homem siliconado, ainda quando considerado belo, está mais para propaganda enganosa que para a autenticidade. Do mesmo modo, sua beleza não corresponde ao bom, ou saudável. O cantor Netinho quase morreu por abusar de anabolizantes para aumentar a massa muscular e se apresentar de peito nu em frente de suas admiradoras e fãs.

Todo arquiteto sabe que a função da decoração é encobrir um defeito de construção. Os maquiadores podem dizer o mesmo e Caymmi sintetizou isto muito bem numa canção quando ele pediu a Marina morena para não se pintar, “pois você já é bonita como Deus lhe deu”.

domingo, 30 de março de 2014

O enigma baiano revivido

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 30/03/14

 Os 50 anos do golpe de 1964 tem ensejado reflexões sobre a história recente da Bahia em periódicos e o recém encerrado III Fórum do Pensamento Crítico dedicado ao “Autoritarismo e Democracia no Brasil 1964 -2014” iniciativa da Fundação Pedro Calmon. Dois pontos devem ser ressaltados, o foco na historia recente, e a assunção do pensamento critico por um órgão publico como fundamental para construir o futuro. Mas é preciso passar do simples desagravo a estudos mais consistentes.

Quero aqui ampliar este debate com as transformações da nossa economia no mesmo período. Na década de 1950, quando a economia baiana patinava, Pinto de Aguiar convidou seus pares a decifrarem o que chamou de o enigma baiano. Como a Bahia tendo sido um dos maiores produtores de açúcar e fumo do mundo e pioneira da industrialização não conseguiu se capitalizar. Recorde-se Fabrica de Tecidos Todos os Santos (1844), em Valença, Cia. Fabril dos Fiais (1890), a Cia Empório Industrial, de Luis Tarquinio, e a União Fabril da Bahia, que fundiu cinco pequenas tecelagens (1891) e Fratelli Vita fabricante de refrigerantes (1902 , que foi a maior e mais conceituada fabricante de cristais do Brasil. Hoje são só ruínas.

No ciclo do cacau tivemos grandes produtores a exportadores, como Wildberguer, Barreto de Araujo, Correia Ribeiro e Chadler que quebraram muito antes da vassoura de bruxa. Correia Ribeiro, além do cacau, tinha um banco, uma construtora, lojas de materiais, postos de gasolina e supermercados. Tentando superar esse paradeiro, Oscar Cordeiro foi buscar petróleo em Lobato em 1937. A dois outros baianos, Landulfo Alves e Rómulo Almeida, este um dos fundadores da Petrobras e da CPE, se deve a implantação da Indústria petrolífera na Bahia em 1949 e seus dois filhotes, o Centro Industrial de Aratu e o Copec.

Com o ciclo da exploração do petróleo e atuação da Sudene, surgiram algumas industrias na Bahia de grande porte que acabaram quebrando ou sendo vendidas para o sul. Podemos citar a Usiba, hoje Gerdau; Sibra/ferro-ligas, agora Vale/Usiminas; Cimento Aratu hoje Votorantim, apenas moendo “clinquer”; Alimba, hoje Parmalat. Outras fecharam, como a Sambra de óleos vegetais; Opalma, maior fabricante de óleo de dendê; Elevadores Amoedo; Ceramus, fabrica de azulejos; Cesmel, estrutura de aço; Incabasa, carrocerias de ônibus; Ralf, de moveis; Poliflex, luminárias, etc.

No comercio firmas mais antigas se fecharam, como Florentino Silva, Buriti, Correia Ribeiro, Schindler e Adler, Duas Américas e Nova America. No setor de alimentos Eurico Magalhães, o rei do açúcar, Manuel Joaquim de Carvalho; Costa e Filhos, A. Vasques e Cia, José Martins e Cia, Raul Schuab e Cia, fundador da primeira rede de supermercados, e Mamede Paes Mendonça que chegou a ser o terceiro no ranking.

Perdemos tudo a partir dos anos 60. Este é o novo enigma baiano. Seria precipitado dizer que tudo se deve ao golpe. Outros fatores podem ter influído, como a inflação dos anos 70 e 80, os problemas de sucessão dentro da empresa etc. Mas a tônica de Delfin Neto de primeiro acumular para depois distribuir, o fechamento de agencias de desenvolvimento regional, como Sudene e Sudam, e de planejamento na Bahia, a CPE, e o exílio da elite intelectual que imaginava um projeto de nação com reformas de base e planejamento, com homens como Celso Furtado, Anísio Teixeira, Rômulo Almeida e Darcy Ribeiro, são na maior parte responsáveis por essa razia.

Na Bahia o autoritarismo perdurou por mais vinte anos, como uma disputa de um grupo emergente contra aqueles que lhe serviram de degraus pelo domínio político e econômico do estado. Assim deve ser vista a venda do Banco da Bahia, a quebra do Econômico, a disputa pelo espolio dos Diários Associados e sinal da Globo, o fechamento do Jornal da Bahia, a alienação do território municipal, a falência de empresas tradicionais de construção, como Comercio e Imóveis, Concic Portuaria, Comeba e Sisal e a formação de um novo cartel de grandes empreiteiras. Em suma, a concentração do poder econômico. Este é outro aspecto do golpe de 64 que precisa ser estudado.  

domingo, 16 de março de 2014

Legado da Copa e padrão FIFA

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde de 16/03/14


Durante muito tempo a propaganda oficial falava do legado da Copa. Este discurso mudou para obras padrão FIFA. Quanto ao legado, na quase totalidade das doze cidades onde serão realizados jogos, a Copa deixará apenas a reconstrução de estádios, que poderiam ser reformados por um terço do custo de novos, estes com menor capacidade que os antigos. É lamentável termos perdido a oportunidade de direcionar a cidade para outros rumos diminuindo sua congestão. Só Pernambuco soube fazer isto, porque tem planejamento.

Se para cada espectador da arena vierem mais dois acompanhantes teremos no máximo 150 mil pessoas, ou um quarto das que vêm anualmente ao carnaval da Bahia. Em Salvador nem metrô, nem VLT ou BRT, nem mesmo a renovação dos velhos hotéis. Os R$400 milhões de financiamento do BNDES para melhoria urbana foram repassados integralmente para a concessionária Fonte Nova Negócios e Participações (FNP). Recursos praticamente doados, pois com garantia do Governo Federal. Pela construção e gestão do estádio por quinze anos a FNP irá receber R$1,6 bilhões e mais 25.000 m² de terreno no centro da cidade para construção de shopping e escritórios.

Estádio Otávio Mangabeira, com duas grandes piscinas,
pistas de atletismo e um ginásio de esportes
Estadio com padrão de qualidade FIFA
Fotos: Google Earth
Afinal qual é o saldo desta Copa? Perdemos um complexo esportivo com duas grandes piscinas, pistas de atletismo e um ginásio de esportes. Perderam os times, em especial o Bahia, que terá que dividir a bilheteria e os direitos de transmissão com o novo dono do estádio. Perdeu a Bahia ao ter a homenagem a um dos seus maiores filhos, Otavio Mangabeira, transferida para uma cervejeira de Alagoinhas.

Imaginem o Maracanã ser reduzido à Arena Schin, ou o estádio Mané Garrincha ser transformado em Arena Pitu ou 51. Perdeu o torcedor que teve o seu estádio com a capacidade reduzida a quase a metade e os ingressos aumentados em proporção inversa. Perdeu também por não mais poder escolher o que beber e comer. A publicidade não é mais sugestiva ou subliminar é compulsória.

Quanto ao padrão de qualidade FIFA é preciso analisar a construção dos estádios. A quase totalidade deles foram projetados por arquitetos indicados pela FIFA com coberturas da RFR Stuttgart. Deixemos de parte os prazos e orçamentos estourados. O nosso, projetado pelo Arq. Marc Duwe, tem erros elementares, como a não articulação do estádio com o metrô vizinho e sua saída principal em escadaria despejando diretamente na pista de uma das vias mais velozes da cidade. Para alojar as bilheterias e portarias de entradas foi improvisado um colar de barraquinhas de lona em volta ao estádio. Embora bonito por fora, imitando o antigo, o acabamento de seu interior é do terceiro mundo.
Saída principal em escadaria despejando diretamente na pista e
barraquinhas de lona. Foto Henrique Azevedo
Este padrão estaria ligado à transparência. A pergunta é: para onde vão os direitos de transmissão de TV, bilheterias, patrocínios e merchandise que a FIFA arrecada sem investir um centavo? A FIFA não faz nada pelo futebol amador e pela educação esportiva. Ainda que por acaso, a sede da associação está na Suíça, onde as contas são sigilosas. Sobre a FIFA é preciso ler o livro de Andrew Jennings publicado na Inglaterra em 2006 cujo titulo em português seria “O mundo secreto da FIFA: subornos, manipulação de votações e escândalos de bilheterias”. Ao livro se seguiram outras denuncias apontadas no parlamento inglês e na BBC.

Uma delas é que três membros do conselho da FIFA, incluindo Ricardo Teixeira, teriam recebido suborno para escolherem o Qatar como sede da Copa de 2022, um país com a metade da população de Salvador, com temperaturas acima de 40ºC, e sem futebol.

João Havelange, presidente da FIFA durante 24 anos, teve que renunciar em 2013 a presidência de honra da FIFA para não ser julgado pelo seu conselho de ética e justiça da Suíça. Seu sucessor Joseph Blatter está no poder há 16 anos numa administração nebulosa. O genro de Havelange, Ricardo Teixeira, presidente da FBT durante 23 anos, teve que renunciar em 2012 três anos ante do prazo e ir morar no exterior diante de reiteradas denuncias de corrupção e sonegação fiscal. É este o legado ou o padrão FIFA?

quarta-feira, 5 de março de 2014

Happy end na Paralela

Paulo Ormindo
Publicado em A Tarde, SSA: 26/06/2011

Mais que analisar a solução apontada para a ligação Acesso Norte - Lauro de Freitas, quero aqui analisar o processo. A primeira lição do episódio é que Salvador já não é a mesma de 2007, quando a Câmara de Vereadores aprovou na calada da noite o PDDU vigente. Apesar de não ter havido audiências públicas, foi intensa a mobilização da sociedade em torno da escolha do sistema de transporte na RMS, através de jornais, blogs, rádios e reuniões promovidas por instituições como Crea-BA ou convocadas por vereadores e deputados estaduais. Esta ação cidadã foi decisiva na definição do modal de mobilidade.

Aquilo que parecia impossível, vencer o poderoso consórcio do BRT, acabou acontecendo. Recorde-se que o projeto do Setps, iniciado em 2003, foi um dos vinte oferecidos por investidores privados e encapados pela prefeitura no pacote Salvador capital mundial. O Setps e a construtora consorciada realizaram o levantamento topográfico da rota e financiaram os estudos preliminares da TTC - Engenharia de Tráfego e Transportes na certeza de ganhar a concessão e impor o BRT como paradigma para a RMS. Para isso publicaram revistas, trouxeram jornalistas, promoveram viagens e investiram em um lobby milionário. 

Não se pode ignorar o papel que tiveram movimentos populares como "Salvador sobre Trilhos", "Eu quero VLT em Salvador", "A cidade também é nossa", e "Associação de Ferroviários". Esta foi uma grande vitória desses movimentos, já que a elite manteve o tradicional silêncio obsequioso, mas haverá de gritar quando não puder mais sair da garagem. O povo não está interessado em eventuais jogos a que não poderá assistir. Ele quer é passar menos tempo dentro de um ônibus com chassi de caminhão superlotado, com curral e torniquete kafkiano. Sua paciência já se esgotou e os protestos, bloqueio de avenida e estações ameaçam repetir o "quebra bonde" de 1930. 

Mas não se pode deixar de reconhecer o papel desempenhado por Zezéu Ribeiro. Político hábil, ele tem sabido utilizar estes movimentos para contrabalançar a pressão de poderososlobbies, como já havia demonstrado ao mudar a localização do porto sul que ameaçava destruir uma das mais sensíveis APAs do Estado. No caso presente, além de fazer ecoar as manifestações contra o péssimo sistema de buzus, explorou as contradições do capitalismo ao abrir o PMI a outros grupos e exibir suas propostas no site da Seplan. Isto destruiria o mito do BRT com única solução possível. 

Zezéu pegou o bonde andando e tenta dar tecnicidade a uma secretaria desaparelhada. Mas uma andorinha só não faz verão. É preciso se criar um processo institucional de gestão planejada e participativa. O atropelo desta escolha demonstra que não havia no governo nenhum pensamento sobre a RMS e transporte de massa. Não se sabe como descongestionar a capital, nem como infraestruturar a RMS. Precisamos restaurar a função do planejamento, reduzido pelos políticos a um instrumento, a posteriori, de legitimar decisões autoritárias. Este não é o caso em pauta. De que vale fazer audiências públicas e atualizar pesquisa de origem e destino a esta altura?

A decisão adotada foi acertada, distinguindo vias "troncais", de transporte de massa sobre trilhos, e vias transversais capilares, operadas por BRT e ônibus comuns. No meu entender, o monotrilho está descartado. Seu impacto visual e difícil acessibilidade a uma plataforma de 35m de altura o desqualifica. O metrô de superfície com pequenos mergulhos nos cruzamentos é perfeitamente viável no prazo estabelecido e atende à exigência da presidente de conclusão do metrô. Ele elimina desapropriações e os 27 viadutos da consorciada do BRT. Os carros do metrô já estão aqui. A grande questão é quem administrará este sistema misto, mas para isso temos tempo. 

Em resumo, o episódio da escolha do modal da ligação Acesso Norte - Lauro de Freitas mostrou a força dos movimentos populares e que o planejamento da RMS e da Bahia não pode ficar a mercê da eventual titularidade da Seplan por um técnico competente e íntegro. Deve ser uma política de Estado com quadros idôneos dispostos a ouvir a comunidade, que deveria ser o principal objetivo da política.