sábado, 5 de julho de 2014

Decifra-me ou te devoro

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde de 06/07/14.

As grandes manifestações de rua do ano passado, que replicam até hoje, é um enigma semelhante ao da esfinge de Tebas. Ninguém até agora conseguiu decifra-lo. Será que foi por acaso que a multidão tentou invadir o Congresso, o Itamaraty, palácios estaduais e municipais, quebrar agencias de bancos e lojas de carros de luxo e queimar centenas de ônibus em todo o país? 

Quem era e o que queriam aqueles “vândalos”, que segundo as autoridades e mídia não faziam parte do admirável gado novo apascentado, ninguém sabe por quem, pelas avenidas de todas as capitais do país? Estranho que isto ocorra quando 34 milhões saíram da pobreza, o emprego está em alta e a classe media surfa no consumo. As antenas do poeta Arnaldo Antunes já haviam captado esta insatisfação em 1987: “Comida é pasto. A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte. A gente quer saída para qualquer parte. A gente não quer só dinheiro, a gente quer inteiro e não pela metade”. 

Dizer que as manifestações foram apenas contra a Copa e orquestradas pela mesma elite que vaiou a presidente no Itaquerão é querer tapar o sol com a mão. Ainda não existe uma explicação para o fato, mas uma das melhores abordagens da questão foi feita pelo sociólogo e professor da PUC-Rio Luiz Werneck Vianna em entrevista na Revista de Historia da Biblioteca Nacional, do mês de junho, nº 105. Luiz Werneck é um intelectual de esquerda, que não faz parte da elite nem da mídia conservadora.

Werneck afirma que o economicismo tradicionalmente usado para explicar acontecimentos sociais não decifra esses novos fenômenos. “Ficou claro que há uma distancia imensa entre o estado e a sociedade, apesar da existência de todos esses aparelhos... para dar conta de questões especificas, como gênero, juventude”. Conflito que é dramático nas UPPs do Rio e de S. Paulo. “Há um verdadeiro levante popular que não se encontra com nenhuma mediação institucional: partidos, sindicatos, associações. Uma energia muito forte que não é canalizada para um fim determinado” (p.50), afirma ele. 

Werneck admite que o movimento estivesse originalmente ligado a uma classe média emergente e até a setores tradicionais: “O Movimento Passe Livre, por exemplo, nasceu na USP com estudantes de origem financeira mais alta. Mas o fato é que isto galvanizou a imaginação dos jovens que se fizeram presentes. E a questão toda gira em torno de por que eles não encontraram canais visíveis e já estabelecidos para onde essas demandas pudessem desembocar” (p. 50). 

Sobre esta falta de comunicação comenta: “Vencidas as eleições, o PT negligenciou sua própria identidade. Deixou de ser um partido da sociedade civil, mobilizador, e passou a viver como um partido de Estado, com políticas de Estado para seres subalternos selecionados, hiperburocratizado, perdeu capacidade de organização, deixou de exercer papel pedagógico, de ensinar às pessoas o que está passando, o que se pode fazer”(p.52). Os demais partidos também perderam a identidade. “O que se está disputando (agora) nem é um projeto de sociedade ou país. Trata-se de quem irá administrar, no dia a dia, essa cinzenta ordem burguesa no país” (p.53). Esta reflexão é importante para reaproximarmos o estado da sociedade. 

domingo, 22 de junho de 2014

Barrados no baile

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 22/06/14

Tem razão o establishment quando afirma que as manifestações conta a Copa é um movimento de classe media e que as agressões grotescas e pueris à presidente não vieram do povão, que não tinha dinheiro para entrar no Itaquerão. Mas o argumento é incongruente, pois admite que as arenas não foram concebidas para o povo, senão para a classe media alta e globalizada. 

O povão não participa da Copa e a assiste em casa pela TV, como se ela fosse um campeonato em outro continente. Há muito poucos torcedores nas ruas e bares da periferia ou em volta das arenas. Populares ouvidos pela mídia dizem que esta é uma copa dos “brancos” e dos gringos. Este que era um esporte abrilhantado por negros e mestiços. Traço que já havia sido assinalado por Gilberto Freyre em artigo de 1938 com o titulo Football mulato e no primeiro livro sobre o tema, O negro no futebol brasileiro, de Mario Filho publicado em 1947.

Como eu previa em artigo de 16/3/14, em Salvador a Copa teria muito menos impacto que o carnaval. A ocupação hoteleira é de 70% e Salvador é o sexto destino turístico entre as sedes da Copa graças à falta de planejamento. A BR 324 está engasgada com obras em sete pontilhões, o metrô nanico é exclusivo para os portadores de ingresso da Copa, não se pode caminhar no Porto da Barra, ponto emblemático da cidade, de tão esburacado que está e as ruas vizinhas e o estacionamento da Fonte Nova foram interditados. Não está disponível nenhum guia ou mapa da cidade, nenhuma sinalização ou indicação da boa culinária baiana, galerias de arte, shows e rodas de capoeira. 

Em 2007 o Brasil crescia e Lula queria comemorar os dez anos do PT no poder e os 30 milhões de brasileiros que deixaram a pobreza absoluta. Mas nestes sete anos a economia minguou, o custo das arenas foi triplicado sem nenhum legado urbano e os que passaram a ter pão se juntaram à classe media rebaixada e insatisfeita com a mobilidade urbana, a saúde e a educação. Este quadro contrasta com os R$ 35 bilhões superfaturados, que ultrapassam as três ultimas Copas juntas. Enquanto na África do Sul um assento numa arena custou US$1,500, na Alemanha US$2,530, no Brasil chegou a US$5,500. O público se sente traído por pagar o baile e ser barrado na entrada. Perdemos a Copa fora das arenas e a Seleção sua para vencer dentro delas. 

A FIFA se transformou num cartel em que os países sedes dos jogos arcam com vultosas despesas e ela, isenta de impostos, fica com todo o lucro, estimado em R$15 bilhões, de fornecedores, merchandise, transições de TV e bilheterias. Seus diretores são vitalícios e não se conhece nenhuma obra educativa ou social da FIFA. Para onde vai todo este dinheiro na Suíça? O modelo de copa da FIFA é absurdo e caduco, contrariando todos os princípios do bom senso e da ecologia: insustentável, excludente, negador da cultura local, uni supridor de alimentos e bebidas e não reciclador de estádios. 

A Seleção não é mais a pátria de chuteiras de 1970 em que o futebol era o ópio do povo nos anos de maior repressão. Avançamos muito politicamente ao contestar a prioridade do circo. É bom lembrar que movimentos revolucionários sempre foram deflagrados pela classe média inflamando multidões. Vide Rússia, China e Cuba.

domingo, 8 de junho de 2014

Um gosto amargo de perda

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde de 08/06/14

As comemorações dos 100 anos de nascimento de Diógenes Rebouças com a exposição de 80 telas dele no Museu de Arte do Estado e 70 anos do inicio dos trabalhos do Escritório do Plano Urbanístico da Cidade do Salvador com a publicação do livro “Acervo do EPUCS, contextos, percursos, acessos” coordenado pela Profa. Ana Fernandes não têm nada de pitoresco ou saudosista, senão de protesto e denuncia.

Protesto do próprio Diógenes que abandona a profissão aos 50 anos ao ver os rumos que a cidade tomava com a liberação do uso do solo e a pratica da “arquitetura do m²” feita pelos corretores. Prevendo o urbanicídio de Salvador ele procura resgatar em acrílico a cidade que ainda alcançou e que começava a ser destruída. Durante dez anos ele reconstruiu 70 cenas de Salvador que seriam publicadas em 1977 no livro “Salvador da Bahia de Todos os Santos no século XIX” com notas de Godofredo Filho editado pela Odebrecht.

A exposição e seminários organizados pela Faculdade de Arquitetura da UFBA e IAB-Ba são uma mostra da cidade que perdemos e o livro sobre o EPUCS da regressão urbanística que sofremos. Cidades que foram destruídas na ultima guerra foram reconstruídas para restaurar a autoestima de seus habitantes. Nós fizemos a trajetória inversa, destruímos a cidade para criarmos a guerra da segregação sócio-espacial, da violência e da imobilidade urbana. Não podemos voltar à cidade perdida, mas podemos parar a barbárie e construir uma cidade mais humana, que não seja apenas mercadoria.

O livro sobre o EPUCS é uma demonstração da seriedade e criatividade de um plano feito em condições adversas de uma prefeitura falida e uma cidade estagnada, mas com o norte no futuro. É também uma denuncia do pouco apreço de nossos alcaides pelo planejamento. Dez anos de trabalho foram necessários para salvar fragmentos de mapas, plantas, maquetes e textos feitos por uma equipe dedicada sob uma das administrações mais desastrosas dessa cidade, que por não ter controle de nada não se deu conta que a revelação daquele acervo colocaria como antagônicos o EPUCS e sua administração.

O livro não chega a analisar o enorme volume de informações contidas nos documentos elaborados por uma equipe multidisciplinar de urbanistas, arquitetos, cartógrafos, topógrafos, sociólogos, demógrafos, médicos e botânicos. Era preciso primeiro resgatar as fontes para que outros pesquisadores possam mergulhar na sua analise. Mas o livro põe em cheque os processos arbitrários de decisão pública e cria um referencial que se não for seguido no novo PDDU e Lous os condena a ter o mesmo fim dos anteriores rejeitados pela população e anulados pela Justiça.

O EPUCS foi uma das experiências mais avançada de urbanismo de seu tempo, quando no Brasil ele ainda era praticado apenas por engenheiros sanitaristas. A equipe sem descuidar dessas questões centrou seu trabalho nos questões sociais e ambientais de Salvador. Infelizmente os estudos foram paralisados com a morte de seu idealizador, Mario Leal Ferreira. O plano seria macaqueado vinte anos depois, quando a cidade já havia dobrado de população e seu centro mudado para o Iguatemi. As telas de Diógenes e o livro do EPUCS são apenas registros, mas nos deixam um amargo no olhar.

domingo, 25 de maio de 2014

Você já foi ao Ceará? Não? Então vá!

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 25/5/2014

Nenhum estado brasileiro foi mais deserdado pela natureza do que o Ceará. Cerca 93% de seu território está no Polígono das Secas. Raquel de Queiroz fez seu “debut” na literatura com o romance “O quinze” em que conta o horror da seca de 1915. Hoje aquele estado é um dos mais desenvolvidos do Nordeste com uma enorme classe media que enche os restaurantes e as lojas durante toda a semana. Fortaleza é o município com maior PIB do Nordeste e o Ceará o estado com a melhor qualidade de vida do Norte e Nordeste. Pude comprovar isto há algumas semanas quando fiz ali uma palestra no XX Congresso Brasileiro de Arquitetos.

Em grande parte isto se deve ao trabalho desenvolvido ao longo de 105 anos pelo DNOCS. Hoje o estado tem 144 açudes para irrigação e abastecimento urbano e só os trinta maiores tem capacidade de 19 bilhões de m³, mais da metade de todo o Nordeste. O maior deles, o Castanhão, tem 6 bilhôes m³ e o maior da Bahia, Cocorobó, construído para afogar Canudos, não passa de 245 milhões. A outra razão foi a opção pela pequena e media empresa, como confecções, sapatarias e lavouras de algodão e caju, que geram mais emprego que as grandes. O Mercado Central de Fortaleza é uma mostra da força dessa economia popular. Ao DNOCS se somou o Banco do Nordeste, que tem realizado uma serie de estudos e financiado prioritariamente o desenvolvimento daquele estado. 

Pernambuco, por seu lado, é sede da Fundação Joaquim Nabuco, da Sudene e da Chesf. Essas instituições são responsáveis pelo pensamento e financiamento de grandes projetos. Nossos políticos nunca conseguiram atrair para a Bahia nenhuma grande agencia federal e perdemos todos os bancos, públicos e privados, temos apenas uma repassadora de recursos federais. Os nossos governantes não gostam de planejamento, preferem o clientelismo fisiológico. Cada nova gestão, interrompe os projetos iniciados pela anterior e não consegue concluir os seus. A Comissão de Planejamento Econômico criada por Rômulo Almeida teve vida curta, não obstante os enormes serviços prestados ao estado, com a criação do CIA e Copec. 

Os portos da Bahia estão saturados e ultrapassados. Pecém, no Ceará, é o porto nacional mais próximo da Europa e dos Estados Unidos. Em sua retroárea está sendo construída uma siderúrgica e em breve deve ser iniciada uma refinaria. O aeroporto de Fortaleza é o portão mais rápido e barato de ingresso no país e o turismo vem crescendo a índices elevados. Um “pirata” português resolveu abrir sua boate no dia de descanso de outras casas noturnas, a segunda feira, e é um sucesso estrondoso. Aproveitando essa onda turística está sendo inaugurado um aeroporto internacional em Aracati, onde se encontra a famosa praia de Canoa Quebrada.

O PDDU da capital é desenvolvido pelo Instituto de Planejamento de Fortaleza em estreita colaboração com a academia e discussão com as entidades de arquitetos-urbanitas e engenheiros. Um dos seus pontos altos é o Plano de Mobilidade que prevê três linhas subterrâneas de metrô e uma de VRT, além de BRT e ciclovias, já em execução. Para se livrar do superfaturamento das empreiteiras o estado comprou um tatuzão (TBM) para abrir os tuneis. A preocupação com a mobilidade não se restringe à capital. Duas linhas de VLT estão sendo construídas em Sobral e ligando Juazeiro do Norte a Crato. Um detalhe, os vagões dos metrôs e VLTs são fabricados no estado, sobre chassis importados. Os nossos PDDUs são malas pretas. Outra inovação do estado foi a criação do sistema de agentes de saúde. Nem tudo é uma maravilha no Ceará, mas se discute, se briga, e se decide participativamente.

Estas observações, com grande recorte temporal, não são uma critica a nenhuma administração em especial, senão uma reflexão sobre as diferentes governanças dos estados. O exemplo do Ceará visa servir de estimulo e contribuição aos planos de governo e prioridades de ações que estão sendo elaborados pelos candidatos ao futuro governo. É fundamental criarmos um centro de planejamento e formação de lideres e quadros públicos para levantarmos a Bahia de seu berço esplêndido.

domingo, 11 de maio de 2014

Perguntas frequentes

Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 11/5/2014


O manual do usuário de qualquer produto novo apresenta três seções: para que serve o produto? como funciona? e perguntas frequentes. Na falta das duas primeiras, me antecipo respondendo algumas perguntas frequentes. A ponte Salvador/Itaparica que parecia morta foi relançada com o anuncio do governador de licitá-la antes de deixar o governo e novas contratações de pareceres e projetos para justificar uma decisão tomada em reunião social sem qualquer estudo prévio.

1º - A ponte faz parte do sistema viário de onde? Uma ligação rodoviária não pode competir com uma ferrovia como a Fiol na exportação de minérios e grãos do oeste, mesmo porque o porto de Salvador não opera graneis. Não serve também ao litoral sul, quando está sendo construído o Porto Sul e um novo aeroporto em Ilhéus. Atrações como Itacaré e Barra Grande são mais acessíveis por Ilhéus.

2º - A ponte substituirá a hidrovia? – Os moradores de Niterói sabem que é melhor pegar a barca e saltar no centro do Rio que enfrentar filas, engarrafamentos e pedágio e não poder estacionar no Rio. Os ferries vão continuar transformados em barcas de passageiros.

3º - A ponte será um escape ou ladrão para Salvador? Quem atrai mais: Salvador ou Nazaré? A ponte irá apenas congestionar Salvador e a Estrada do Côco trazendo os veículos da BR-101 e BR-116 para o litoral norte onde estão o aeroporto, praias, Copec, Ford e acesso ao Nordeste. Quem perde com isso é S. Antonio de Jesus, Salvador e Feira de Santana. A ponte irá ainda duplicar a RMS aumentando sua função de dormitório e prestador de serviços de educação, saúde, abastecimento e lazer para trabalhadores que enriquecem outros municípios. A solução tem que ser ferroviária, pois a ponte será tão engarrafada quanto a Paralela.

4º - Itaparica será uma expansão de Salvador? A classe média quer centralidade, ficar junto do emprego, dos colégios e universidades, dos hospitais, do teatro e dos cinemas. Também não tem lógica criar conjuntos habitacionais para operários que irão trabalhar em Candeias, Simões Filho e Camaçari, sujeitos a esperar horas para a passagem de plataformas de petróleo e guindastes. A Ilha será apenas um acampamento rodoviário como São Gonçalo junto a Niterói.

5º - A ponte beneficiará a RMS e o Recôncavo? Saltando de Salvador para Jaguaripe a ponte irá marginalizar ainda mais o Recôncavo com seu enorme potencial turístico e náutico. A baía também perde com um gargalo na sua boca dificultando o acesso a seus quatro portos internos: Aratu, Temadre, Regaseificação e Estaleiros de S. Roque.

6º - Qual a importância econômica da ponte? Se não serve ao oeste. ao sul ou a RMS o que ganha o estado com esta ponte rodo-eleitoral? Não sabemos responder. Mas “Pergunte ao José”, saudoso programa radiofônico baiano.

7º - Quanto pagaremos pela ponte? Todos sabem que uma ponte não se paga pelo pedágio. A solução apontada de leilões de CEPACs não está funcionando nem no Porto Maravilha, no centro do Rio. Sem esquema financeiro assegurado, ela será iniciada e parada e as empreiteiras irão receber durante anos por terem seu contrato suspenso como aconteceu com o metrô perna-de-pau de Salvador. Mesmo que a União banque uma parte, teremos que pagar uma divida monstruosa, o equivalente a quatro superportos tipo Mariel em Cuba, ou três refinarias de Pasadena, ou ainda as doze arenas da Copa, enquanto o sertanejo, a lavoura e o gado morrem de sede no semiárido. 

8º Não haveria uma alternativa mais interessante? Sim, seria a construção da Envolvente Rodo-Ferroviária de Kerimorê ou BTS, ligada ao novo porto de Salinas da Margarida, projeto que custaria um terço da ponte e teria efeitos socioeconômicos e culturais muito maiores. Ela alavancaria o desenvolvimento do Estado e da RMS e integraria todo o Recôncavo com um trem rápido metropolitano fazendo a ligação Salvador-Feira com variante para São Roque/Itaparica. E ainda reduziria para um terço o acesso de carros para a ilha e criaria milhares de empregos perenes.

P.S. - Não confundir “Pergunte ao José” do mestre Cid Teixeira com “José”, poema de Carlos Drummond de Andrade.

domingo, 27 de abril de 2014

E o “guayacán” voltou a florir...


Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 27/04/1

Era uma vez uma cidade chamada Guayacán dominada por um barão perverso, sétimo homem mais rico do mundo e dono de 80 % do comercio mundial de sonhos e pesadelos. Grande parte de seus habitantes eram mulas, que transportavam sonhos pesados como chumbo. Sua lei era “plata o plomo” - dinheiro ou chumbo - e com isso ele controlava juízes, legisladores, governantes e cidadãos. Três candidatos a presidentes de seu país e milhares de mulas suspeitas e rivais foram mortos por ele. Em 1991 o número de homicídios por cem mil na cidade era de 381. Dois anos depois a cidade se revoltou e o matou, mas continuou dominada pelo barão de uma cidade vizinha. A partir de 2004 esta “Sin City” começou a mudar, quando o irmão do governador do estado, sequestrado e morto um ano antes, resolveu assumir a luta e mudar o estado e a cidade. O guayacán, o nosso ipê amarelo, voltou a colorir os tetos de zinco da grande favela.

Esta não é mais uma fabula cruel com final feliz, é uma historia real. Guayacán é o símbolo de Medelín, na Colômbia, e o barão era Pablo Escobar. Em 2007 a taxa de homicídios despencou para 34 e o índice de alfabetização subiu para 96,65%. Medelín conseguiu isto rompendo a segregação sócio-espacial com um inovador sistema de metrô, BRT, teleféricos e escadas rolantes, que chega aos pontos mais isolados da cidade. Ali foram instaladas bibliotecas-parques, escolas e museus de primeiro mundo, e não meias-solas, onde se faz a inclusão social.

Há três semanas, pessoas vindas de todos os cantos do mundo vieram conhecer o milagre de Medelín. O prefeito Aníbal Gaviria(48) e seu parceiro nesta luta, o governador da província de Antioquia Sergio Fajardo, se juntaram ao premio Nobel de economia Joseph Stiglitz, ao Dr. Joan Clós, diretor executivo do Habitat e ao ex-prefeito de Nova York, o bilionário Michael Blomberg para divulgarem para o mundo o que aconteceu na cidade, no VII Fórum Urbano Mundial, da ONU-Habitat. Uma dezena dos maiores profissionais e teóricos do urbanismo foi convidada a avaliar criticamente a experiência de Medelín.
Prefeitos, entre os quais a nossa vice, empresários, diretores de fundações e ongs, lideres sociais e tribais e técnicos, como este escriba representando o CAU/BR, discutiram o futuro das cidades em mesas redondas e diálogos. O tema central era Equidade Urbana no Desenvolvimento de Cidades para a Vida. Dentro deste marco foram discutidos os efeitos das mudanças climáticas; o processo acelerado de urbanização que transformou nossas cidades em favelões; a crescente segregação sócio-espacial com barreiras físicas e sociais, a mobilidade urbana e a inclusão social para combate à violência.

A escolha de Medellín não foi por acaso, a cidade acaba de ganhar o concurso City of the Year, organizado pelo The Wall Steet Journal, como a cidade mais criativa do mundo. Este milagre se deve a inclusão social realizada pelas empresas publicas Desarrollo Urbano e Transporte Masivo del Valle de Aburrá, da mais alta qualificação e eficiência voltadas para o social. O premio Nobel Stiglitz sintetizou a experiência: “O que me agrada em Medelín é que se está focando o conceito de dignidade, ao criar espaços atrativos e fazer as pessoas se sentirem bem. Não é apenas uma luta pela sobrevivência, é uma aposta no brilhantismo”.

O prefeito Gaviria é um administrador formado em Harvard. O governador Sergio Fajardo é professor universitário e ex-diretor do Centro de Ciência e Tecnologia de Antioquia. É uma pena que nossos secretários de planejamento estadual e municipal não estivessem presentes para se contaminar com Medelín como fizeram 20.000 administradores e técnicos de todo o mundo.

Apesar de sermos a 13ª cidade mais violenta do mundo, a experiência de Medelín nos renova a esperança. Mas para isto temos que apostar na reconstrução do setor público, no planejamento com foco no social, na inteligência e criatividade de nossos cidadãos. Não podemos continuar a licitar projetos apócrifos pelo menor preço. Temos que respeitar a dignidade do nosso povo.

domingo, 13 de abril de 2014

O culto brasileiro ao belo


 Paulo Ormindo de Azevedo
SSA: A Tarde, 13/04/14

A unidade verdadeiro-bom-belo foi formulada originalmente na Idade Média, mas se transformou num clássico. No século XIX, Victor Cousin em um livro de grande sucesso, que tem este titulo, afirmou que em todas as épocas estas foram as preocupações básicas da filosofia. Coube a Frederich Nietzsche, em 1886, mostrar o antagonismo destas três ideias. O culto brasileiro ao belo parece confirmar a observação de Nietzsche. Aqui o belo é um valor dissociado e até antagônico aos demais itens da tríade. Exemplo disto é a proliferação de lojas de decoração, academias de ginástica, spas, salões de beleza, clinicas de cirurgia plástica e ortodontia, que nada têm a ver com o bom e o verdadeiro.

A arquitetura colonial brasileira é mais barroca e bela que sua matriz portuguesa dita chã. Niemeyer dizia que sua obra reproduzia as curvas graciosas da paisagem carioca e da mulher brasileira. Nenhum profissional liberal ou butiqueira que se preze dispensa uma decoradora para dourar seu consultório ou loja com moveis de design não necessariamente cômodos. Este é um requisito fundamental para o sucesso profissional ou comercial, o que confirma que os seus clientes são também cultores do belo. Por isso, não obstante os preços exorbitantes de móveis, tapetes e objetos de design, as lojas do ramo se reproduzem como coelhos em cidades grandes, médias e até pequenas. Esta preocupação estética não se restringe aos espaços de trabalho ou morar, se estendendo ao próprio corpo, num narcisismo próprio dos brasileiros.


O segundo lugar da bela Marta Rocha no concurso de Miss Universo em 1954 provocou uma comoção no país quase igual à perda da Copa de 1950. Vinicius de Morais pedia desculpa às feias, mas dizia que beleza era fundamental.

O Dr. Keneth Cooper, autor do livro Aerobics (1968), treinador das forças armadas norte-americana e conselheiro da seleção brasileira na década de 1970, afirmava que em nenhum país seu método de fazer corpos sarados teve tantos aficionados como no Brasil, a ponto de seu nome ser sinônimo de jogging.


O Brasil é campeão mundial de cirurgias plásticas. Os nossos cirurgiões são considerados dos mais competentes do mundo, perdendo apenas para os colegas tailandeses em operações transexuais. Algumas mulheres fazem operações plásticas periódicas para diminuírem ou aumentarem os seis, o glúteo e colotes em função da moda. Uma brasileira residente nos Estados Unidos é a campeã mundial de seios siliconados, alguma coisa da ordem de quatro quilos, o que lhe salvou em um acidente de carro quando o air bag falhou. Modelos e atrizes se internam em spas durante semanas ou fazem lipoaspirações para uma simples apresentação ou sessão de fotos para revistas masculinas. Também os homens já aderiram a esta prática para mostrar o tórax malhado sem fazer esforço, ou eliminar barrigas hemisféricas, “pneus” e carecas.

Turistas estrangeiros se espantam com a quantidade de pessoas, inclusive de baixa renda, que usam aparelhos de ortodontia nas nossas cidades. Hoje simulacros desses aparelhos, coloridos para serem mais atrativos, são vendidos em tabuleiros de camelôs ao lado de sutiãs e ancas infláveis ou acolchoadas. Perto dali estão as tendas de tatuadores com álbuns de dragões orientais, aves do paraíso, corações flechados, abecedários artísticas e frases do “secretario amoroso” para serem tatuados em homens e mulheres apaixonados ou narcisista que querem atapetar todo corpo com desenhos coloridos.

O belo nesses casos não corresponde ao verdadeiro. Pelo contrario, uma mulher ou homem siliconado, ainda quando considerado belo, está mais para propaganda enganosa que para a autenticidade. Do mesmo modo, sua beleza não corresponde ao bom, ou saudável. O cantor Netinho quase morreu por abusar de anabolizantes para aumentar a massa muscular e se apresentar de peito nu em frente de suas admiradoras e fãs.

Todo arquiteto sabe que a função da decoração é encobrir um defeito de construção. Os maquiadores podem dizer o mesmo e Caymmi sintetizou isto muito bem numa canção quando ele pediu a Marina morena para não se pintar, “pois você já é bonita como Deus lhe deu”.